As Crônicas de Hell City- Capítulo 1

Chichê- O reaparecimento do triângulo amoroso

As pessoas são esquisitas! Eu sei, você vai dizer que em todos os lugares são assim! Pode até ser verdade, mas existe algo peculiar em Hell City, alguma coisa muito estranha acontece nesse lugar.

É um lugar pequeno, cheio de ladeiras e com um calor infernal de 30º Graus no inverno.As pessoas? AH sim! São estranhas! Bizarras, talvez loucas.

Ao lado do meu duplex, morava uma senhora com olhos esbugalhados, cabelos tingidos de loiro e com as raízes brancas aparecendo. Ela usava sempre o mesmo vestido estampado o qual era complementado por uma longa meia três quartos branca, e é claro seu tradicional chinelo preto.

Às quartas-feiras, em especial à noite, ela recebia inúmeros desconhecidos em sua residência e fazia cultos sinistros e misteriosos. As pessoas saíam atordoadas e logo em seguida compravam compulsivamente vários pastéis.O cheiro da comida percorria quarteirões, parecia bom, mas ... sei lá, era tudo tão estranho, que dava medo consumir.

Outro dia, na casa dessa mesma senhora, saiu um gato, um gato preto e manco. Parecia que o pobre animal não comia há dias e que também não era bem tratado. Fiquei com dó, abaixei-me rapidamente para agradar o bichano, mas coitado estava tão assustado que arregalou os olhos e saiu num salto só. Quando olhei para trás... bem... a Tia do Pastel estava atrás de mim.

- Bom dia - acenei levemente com as mãos e levantei-me em seguida .

- Edgar - disse ela com uma voz rouca e apontou para o gato o qual estava encolhido atrás da árvore - Ele não gosta de companhia - continuou em tom ameaçador e mostrou levemente os dentes - Gatos, minha jovem, são criaturas solitárias, sabe?

- Ele parece assustado.

Um miado aterrorizante surgiu do animal.

- Edgar não gosta de gente - comentou- Muito menos de gente nova, sabe?

A senhora se aproximou, meus ossos congelaram e minha respiração tornou-se ofegante.

- Eu não mexeria com ele novamente - advertiu-me

Ela dirigiu-se até o portão, retirou o trinco laranja, olhou para Edgar e fechou com o cadeado.

- Está perdida? -Perguntou-me ela, notando a minha súbita paralisia.

Olhei para o jardim. As rosas estavam mortas. Todas as flores estavam secas. E uma figura fantasmagórica me olhava fixamente por detrás do portão laranja.

- Está perdida?- Repetiu ela pela segunda vez, tirando-me dos meus pensamentos.

- Não -gaguejei - Já estou de saída.

Virei as costas e segui pela calçada, arrisquei-me a olhar ligeiramente para trás. Edgar estava no mesmo local, encolhido e olhos tristes. Algo de muito ruim acontecia por lá.

Hoje, no entanto, eu acordei de bom humor, e saí um pouco para caminhar, já que o Sol não estava fritando a minha pele pálida. Desci a rua e me aproximei da quadra da Igreja, sim a única da cidade! Ela era pequena, mas bem arrumada.

Tirei rapidamente o celular do bolso para fotografar a linda borboleta azul que acabara de pousar na cerca. Foi nesse momento, que entre as folhas das plantas, encontrei May, a filha do pastor, aos beijos com Felicito. Não contive o choque, afinal ela era casada com Alejandro.

OK! Eu sei que estou em Hell City há pouco tempo e isso, talvez, seja pouco tempo para formar uma ideia completa das pessoas, entretanto, eu sou jornalista, eu observo as pessoas, isso é inevitável! Tudo bem, vou ser honesta com você, fui contratada por uma empresa (que vamos manter isso em segredo) para escrever um livro sobre as pessoas de Hell City, sabe talvez não seja ético, nem tão legal falar da vida alheia, mas enfim, querido leitor, vou apenas relatar o que aconteceu e permitir que você julgue, combinado?

Vou ser gentil e contar-lhes tudo o que sei a respeito deles. Vamos começar com May. Ela é uma jovem de vinte e poucos anos, baixinha e gordinha que insiste em pintar o cabelo de "ruivo" o que mais parece laranja desbotado. Tudo bem! Em Hell City tudo é possível e aceitável.

Na vida religiosa se mantém "santa", mas por fora, mostra-se completamente arrogante e falsa. Recentemente, se casou com Alejandro.

Alejandro, sempre foi do tipo oportunista e invejoso. Não possui casa própria e vive nos fundos da igreja, às custas da bondade alheia. Visita regularmente os "fiéis" da igreja local para mostrar-lhes "seus pontos positivos e negativos", como ele mesmo gosta de chamar essas visitas. Casou-se com May para ter certo prestígio com o seu grande amigo Felicito.

Felicito é um solteirão, até de certa maneira cobiçado em Hell City e pelo visto hoje, ele mostrou-se "muito amigo" do casal Alejandro e May. Perdoe-me, pela ironia, mas nunca imaginei que May, Alejandro e Felicito fariam o típico e clichê "triângulo amoroso".

Sou jornalista, então pode me julgar, mas não resisti em tirar uma foto dos amantes aos beijos.

Nesse instante, meu celular vibrou. Era uma mensagem da minha agente. Ao abrir o aplicativo, lá estava uma foto com um nome, "Volmor"

- Volmor - murmurei .

Retirei o meu bloco de anotações e coloquei como tarefa para ser investigada no dia seguinte. O que será que acontecia com esse homem? O que ele havia feito de errado?

Eu não sabia, mas com certeza iria investigar e descobrir todos os mistérios de Hell City, afinal este é o meu dever aqui.